16 março 2015

Dois garotos se beijando, David Levithan

Dois garotos se beijando, de David Levithan é um lançamento da Editora Record, por meio do seu selo Galera.

Como diz no título, o enredo do romance gira em torno de dois garotos se beijando, Craig e Harry, que já foram namorados e, hoje, apenas amigos, que tentando quebrar o recorde de beijo mais longo, se expõe a opinião pública, a visibilidade de seus desejos, ao ato comum do beijo.

Em torno deles, a histórias de outros garotos vão se misturando, como o caso dos namorados Neil e Patrick e de Tariq; ou de histórias que vão correndo paralelamente, como as histórias de Cooper e de Avery, um menino trans, e Ryan, bem como dos narradores.

O ponto central é a questão da visibilidade e de tudo o que essa exposição nos traz e os motivos pelos quais ela é necessária. Cooper é exposto após um descuido e por isso foge de casa, mas já vem fugindo há muito tempo. Avery após conhecer Ryan deve decidir se conta sobre sua transexualidade e Ryan como lidar com a raiva que sente pelos constantes momentos em que se sente minimizado por situações de abuso psicológico que sofre. Neil tem que lidar com o silêncio dos seus pais sobre sua homossexualidade. Craig com a descoberta de seus pais de que ele é gay. Tariq com o medo que ainda sente com a violência que sofreu. Os narradores, com tudo o que passaram e com o desejo de que as coisas mudem para todos os garotos que vieram depois deles.

Duas coisas me chamam atenção nessa nova publicação de David Levithan: a primeira se refere à escolha do narrador, a qual tenho me referido de “narradores”, já que é uma voz plural. São as vozes de todos os gays que vieram antes dos meninos do romance. Eles tem como função não apenas contar essas histórias, mas interpor a realidade de antes, principalmente dos mortos pela AIDS, e evidenciar os desejos e os sentimentos que eles nutrem para as próximas gerações. No início essa forma de narrar é um tanto aborrecida, há muito discurso de “auto-ajuda”, ou assim me parece, porém no decorrer do romance isso diminui e vai se encaixando melhor na narrativa.

A segunda é sobre Avery, o menino trans. Se tinha uma coisa que sempre me incomodou nos romances gays de Levithan era o tom cômico, esdrúxulo e surreal que ele dava aos personagens travestis, principalmente por eles estarem em um ambiente escolar. Sempre me pareceu fora da realidade, superficial no que concerne a essa identidade, a essas pessoas.

Muito embora a condição transexual não seja muito aprofundada no livro, ele me parece muito mais humano que os outros personagens que poderiam ou tinham algo de semelhante com ele. Aliás, nesse romance as personagens parecem ser mais humanas, mais críveis em sua construção e apresentação de seus sentimentos.

Mas por que dois garotos se beijando, em um enredo que se fala mais do que o beijo dos meninos?

A resposta mais objetiva é a de que é baseado num fato real, dois meninos beijaram com os fins de bater o recorde de beijo mais longo. No entanto, há questões outras que envolvem o beijo.

De modo sucinto, o beijo é entendido por algumas perspectivas interpretativas como uma metáfora para o sexo. Há a união dos corpos o penetrar de um corpo no outro, por meio da língua. É também símbolo de desejo e de sentimento. Demonstra o amor, ou a possibilidade dele, entre duas pessoas. É algo que pode ser feito em público (aqui se leva em consideração que, sexo em locais públicos é considerado atentado violento ao pudor), daí muitas manifestações LGBT girarem também em torno do beijo.

É o manifesto da visibilidade. Se o sexo é relegado ao espaço íntimo e privado, e como muitos dizem a LGBTs, que se eles querem ser do jeito que são, que o façam entre quatro paredes, o beijo enquanto ato político é a evidência da existência. Uma existência que quer viver plenamente seus sentimentos, demonstrá-los, sem ter vergonha. Uma existência que empondera e é emponderada, pelo ato, comum, do dia-a-dia. Como é (ou deveria ser) dois garotos se beijando.







Título: Dois garotos se beijando
Título Original: Two boys kissing
Tradutor: Regiane Winarski
Gênero: Jovem Adulto
Páginas: 224
Editora: Galera Record
Preço: R$ 29,00

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